Madrugada

Sofia pegou no telemóvel envolta num misto de saudade e melancolia. Esperou alguns segundos, que lhe pareciam longos minutos, a ouvir os bips da chamada que soavam como se estivessem em sintonia com a sua batida cardíaca. Só queria ouvir a voz de Miguel, e a esperança de que tal acontecesse perdeu-se com a chegada da voz monocórdica do atendedor de chamadas.

- Hmm... Olá amor, está tudo bem contigo? Liguei-te para dizer que queria estar contigo... tenho saudades tuas... de ouvir a tua voz. Hmm... Adoro-te muito... Beijos bem grandes.

Passaram horas. A chamada de resposta chegou de madrugada. Sofia olhou para o visor do seu telemóvel, na esperança perdida de que Miguel não se tivesse esquecido dela... mais uma vez. Uns quantos pares de chamadas perdidas! Distraída a pensar o porquê da insistência e se deveria devolver a chamada, acabou por ser interrompida pela luz brilhante e intermitente do visor onde se podia ver em letras garrafais o nome Miguel. Sorrindo para si mesma, atendeu.

- Sofia... Vem aqui a casa.

- Miguel, são quatro da manhã... 

- Vem ter comigo. Dormes aqui.

- Miguel...

- .... E agora? Vais dizer que não tenho tempo para te ver? A verdade é que não tenho tempo para perder. Se não sabes o que queres o melhor é esquecer...

- O teu tempo para mim só existe quando estás sozinho, sem os teus amigos, a meio da noite? ... Não queiras falar em tempo perdido... hm... não quero discutir Miguel...

- O que é meu é teu se tu fores minha. Sim.. não tenho tempo porque estou na rua, com os meus rapazes. Não questiones as minhas amizades. Atinei, já nem faço porcaria...

- Eu tento-te explicar mas não entendes... Eu apaixonei-me por ti não pelo que tu fazes ou com quem fazes. Por isso não confundas... Pensa bem no que queres, é díficil dar-te algo que não fazes por merecer.

- A culpa é sempre minha... é o que tu dizes. Só amuos. É assim que é suposto continuarmos juntos? É assim que queres que me sinta orgulhoso?

-  Põe a mão na consciência e pensa, devias saber que orgulho é uma coisa que já não tenho. Foi uma das muitas coisas que me tiraste...

- Sim sei... Deves pensar que eu sou burro! Sofia, quem ama não prende. Então vai, vive a tua vida. 

- É por esta relação que eu lute? Miguel, para mim tu vais ser o que quiseres ser. Nunca penses que não te dou mais do que tu me trazes. Prefiro separados do que juntos e infelizes.






Mágoa

"Sei que hoje posso ser amigo e pouco mais. Sabes bem, eu sempre tentei fugir. Sempre me pediste mais e eu nao quis tentar... agora sei: não sei viver sem ti. Hoje sei, tudo falhou, e sei que tens razão... Foi tudo demais para mim. Não te quero obrigar a algo que não queres. Foi erro meu, vou ter de viver sem ti. Quando eu te vi partir percebi o que perdi. Preferi fugir a tentar. Diz-me se hoje ja é tarde demais. Se pudesse voltava atrás, dava tudo o q neguei, sei que falhei, mas posso mudar se hoje não for tarde demais para ti... pois és parte de mim"


- Miguel




"Lembro-me das noites sem dormir... Das canções que ouvimos lado a lado. Segredos e frases que então trocámos, naquele vazio do passado. Lembro-me da chuva em agosto e sinto que nada é permanente. Sei que tudo muda e que tudo passa... Nunca nada é para sempre. Eu sei que tudo passa, tudo fica para trás, como um livro que não li. Por isso eu sinto, e sei, que te vou esquecer... que desta vez irei dizer 'eu' primeiro. Virar a página e querer rasgar as cartas que eu te escrevi. Sei que vou sair... E viver sem ti."

- Sofia

Razão

Desdobrou cuidadosamente a folha de papel que havia encontrado no meio da sua desorganização, para ela tão organizada. Reconheceu imediatamente a caligrafia delicada, suave, como se cada letra fosse desenhada cuidadosamente uma a uma. 
Andreia, a sua melhor amiga, havia escrito uma vez para ela, consciente de que todas as palavras que pudesse dizer, não iriam mudar a atitude submissa de Sofia em relação a Miguel. Pelo menos por enquanto. Escrevera-lhe para que um dia, ao ler de novo aquele pedaço de papel amarrotado tivesse a certeza de que afastar-se de Miguel fora a sua melhor decisão. 
"Ele é só mais um rapaz. É só um rapaz. Não é o “sustentáculo de todos os ossos do teu corpo”, tão pouco “o mármore onde está gravada a suprema razão da tua existência”. É só um rapaz. E queres mesmo saber? É um como todos os outros. Esse que te perguntou as horas no meio da rua – podia ter sido ele e tu nem ligaste. O mendigo, o ginecologista, o padre. Ele sempre esteve ali o tempo todo ou então não estava de todo. Ele é só mais um deles, como eles. Vários. Uma legião. É ninguém. É só um rapaz, mais um. E não a tua vida. E não todos os dias da tua história. Ele não é todas as tuas lágrimas juntas num único sábado solitário. Ele não é o destino. É um rapaz. E existem muitos destinos. Ele é só um rapaz que mal sabe escolher os próprios perfumes. Não sabe sangrar. Não sabe que nome daria a um filho. Não pode ficar mais tempo, não contigo, és boa demais. Ele é só um miúdo perdido como muitos outros que já encontraste. E perdeu. Ele é só um rapaz. E tu já esqueceste outros rapazes antes."

Nunca Mais

Conheceram-se no dia em que Sofia completou dezoito anos. Uma data memorável que ficaria marcada pelo presente mais envenenado que recebera até então.
Ambos já tinham trocado olhares antes (afinal, nenhum dos dois passava despercebido a olhares mais indiscretos). Já haviam comentado com os respectivos amigos que haviam de se conhecer um dia.
Acabaram por ser apresentados pelo melhor amigo de Sofia que, graças à sua perspicácia e no meio de correrias tresloucadas entre um e outro, acabou por conseguir que os dois finalmente partilhassem o mesmo metro quadrado. "Miguel, esta é a Sofia". Miguel sorriu, como só ele sabia, preenchendo uma pequena parte daquele vazio que há muito se havia instalado nos olhos dela.
Começou, a partir desse dia, a viagem mais turbulenta e esmagadora que algum dia sonharam fazer.
Passaram a estar juntos. Sozinhos. Ambos souberam de início que nunca se iria tratar só de uma simples e breve amizade. Havia algo entre os dois que os fazia adivinhar um futuro próximo em comum.
Sofia costumava dizer que tinha sorte ao azar. Tinha a capacidade nata de consertar os outros quando era ela quem mais precisava de ser consertada. Era muito independente, característica que Miguel sempre valorizou. Sempre tinha sido a "solteira" do grupo por opção. Recusava-se a mudar o seu estado civil por alguém que não valia tanto quanto ela merecia. Sabia o seu próprio valor e, por isso, escolhia preservar um pequeno espaço no seu coração para alguém que fosse maduro o suficiente para perceber que lealdade, compromisso e honestidade são uma prioridade e não uma opção. Mas foram estas convicções que a acabaram por trair, ao apaixonar-se perdidamente pela pessoa que era exatamente o oposto do que ela pensava encontrar.
Após dois anos intermitentemente juntos, só restou mágoa.
Sofia nunca se preocupou demasiado, sabia que Miguel iria sentir a sua falta. Apercebeu-se que ele não era suficientemente inteligente. Se o fosse, teria percebido o erro que cometeu ao dizer-lhe adeus.
Contra tudo e todos, Sofia lutou por Miguel mais do que as suas forças permitiram. Tornou-se numa pessoa obsessiva, de mal com a vida, ela que sempre fora a prova viva da alegria em todo o seu esplendor. Encobriu todas as mentiras e asneiras graves que Miguel fazia sucessivamente, prejudicando-se em prol dele. Era errado fazê-lo, sempre soube... mas amou-o tanto que acabou por deixar de se amar a si própria.
Miguel virou a vida de Sofia de pernas para o ar. Fê-la sonhar alto e depois fê-la cair. Quis o amor dela sem intenção de a amar e, quando ela mais o queria, menos ele se dava... só se dava inteiramente quando pretendia algo. Sofia sorria sempre, mas tinha lágrimas nos olhos. Pensava poder viver sem Miguel, mas sem ele não teria razão para viver. 
Tantas foram as vezes que imploraram um ao outro para ficar e começar do zero... Como um ciclo interminável, acabavam por voltar sempre ao mesmo.  
Sofia deixou sempre muito por dizer. "Se fores, não voltes", era o que lhe deveria ter dito logo, ainda que a voz tremesse, falhasse, e as mãos procurassem o conforto das de Miguel sob uma expectativa negada. Miguel foi... mas voltou. Uma, duas, dez vezes... foi e voltou. Inacreditavelmente, acabou sempre por encontrar Sofia exatamente onde a havia largado.
Sofia esperou por Miguel. Quebrou as regras do jogo que ela própria havia construído. Porém, a sorte não esteve do seu lado (como sempre). Arriscou, jogou, perdeu. 
E quando Miguel chegou um dia envolto em indecisões e perdão, foi obrigada a dizer: "Por ti, por nós.. vai. E desta vez não voltes. Nunca mais". 

Esperança



É quando a noite cai e o céu se torna num misto de laranja rosado que as recordações assaltam Sofia. Os seus olhos castanhos amendoados transparecem tristeza e mágoa, o brilho que outrora neles morava desvanece. Se fechar os olhos ainda consegue sentir a mão de Miguel acariciar-lhe os cabelos longos e avermelhados naquela tarde quente de Primavera. Ainda consegue sentir o seu cheiro característico e a força da sua mão robusta quando entrelaçava os dedos nos seus, no que parecia ser o encaixe perfeito.
Foram dois longos anos sempre com uma réstia de esperança de que um dia Miguel iria perceber que ela era a peça que precisava para o completar. Mas passou muito tempo… Demasiado tempo.
Era Verão. Estranhamente, o tempo apresentava-se exactamente ao contrário do que seria de esperar. Chovia sem parar há já algumas horas e, no momento em que Sofia entrava no prédio de Miguel, começou a trovejar. Mal entrou por aquela porta, um relâmpago iluminou tudo em seu redor. Sofia tremeu, como se adivinhasse o que se seguiria. 
Sempre odiou elevadores, tinha medo de entrar neles sozinha e nunca soube encontrar explicação para tal fobia. Miguel vivia no 3º andar, podia subir pelas escadas.. mas nesse dia entrou no elevador sem receio algum, encorajada por algo inexistente que lhe dizia para seguir em frente.
Ensonado, meio despido, como sempre, tão habitual. Foi assim que Miguel a recebeu à porta. Olhou para ela durante uns segundos e caminhou vagarosamente até à sala sem proferir uma palavra. Sofia seguiu-o em silêncio.
Quando entrou na sala Miguel já se havia sentado no enorme sofá verde vibrante, de pernas esticadas, completamente imóvel em frente à televisão. Aquela era uma postura de indiferença e derrota no entender de Sofia, que se sentou ao seu lado silenciosamente.
Passados alguns minutos sem sequer se fitarem, olharam nos olhos um do outro em simultâneo. Sofia sorriu. Foi por aquela pessoa que um dia se apaixonou, e ali continuava ele, aos seus olhos, igual como da primeira vez. Nunca conseguiu arranjar razões para tal fascinio, não que as procurasse, mas quando pensava nisso, não conseguia encontrar um único motivo para ter encontrado o amor em Miguel.
Quem olhasse para cada um deles separadamente nunca diria que algum dia houvesse qualquer ligação entre os dois. Miguel era moreno, tinha um corpo atlético e aquela barba de três dias que lhe dava um ar de rufia de que Sofia tanto gostava. Não tinha por hábito ser muito carinhoso. Sofia também não.
Miguel, em resposta, sorriu. Sofia teve a certeza naquele momento que foi por aquele sorriso que se tinha apaixonado.
Espelhado nos olhos de ambos estava aquilo que não se conseguia passar para palavras. Abraçaram-se. Os dois sabiam que era o fim da linha. As emoções perderam-se naquele abraço. Falaram do percurso de ambos de há dois anos até então. É certo que Miguel não tinha sido exemplar, fez tudo o que quis de Sofia, que sofreu mais do que algum dia pensou sofrer por alguém. E agora já nada conseguiria apagar o passado.
Não é que o amor tivesse acabado, mas há momentos na vida em que se chega à conclusão que amar não é suficiente… Porque dói, porque amar demais também magoa.
O amor é uma coisa engraçada. Normalmente espera-se que seja fácil. Sofia esperava que Miguel dissesse sempre a coisa certa, que soubesse exactamente como ela se sentia ou como devia reagir. Esperava que ele a acalmasse quando ela gritava e corresse atrás dela quando fugia. Só não esperava sentir-se completamente derrotada quando algo não correspondia a todos os seus planos. Mas o amor não é um plano. O amor é, por vezes, inconveniente, doloroso e devastador.
As pessoas não compreendiam porque é que Sofia fazia as coisas que fazia ou porque é que lutava tanto por algo que lhe causava tanta dor. Sofia não sabia, até então, o quão duro é o amor. Inadvertidamente, colocou a sua vida, o seu coração, nas mãos de Miguel e esperou que ele não se esquecesse da importância do que lhe entregara. Ainda assim, para Sofia, todas as luta, todas as lágrimas e incertezas valeram a pena… Afinal é impossível ser cem por cento feliz sem alguém que nos mostre que existe uma grande diferença entre sentir-se feliz e sentir-se completo.
Hoje, Sofia sabe verdadeiramente o que é o amor. Incondicional. Até ao fim da vida pode ter mil e uma paixões, mas será sempre Miguel o seu amor.