Desdobrou cuidadosamente a folha de papel que havia encontrado no meio da sua desorganização, para ela tão organizada. Reconheceu imediatamente a caligrafia delicada, suave, como se cada letra fosse desenhada cuidadosamente uma a uma.
Andreia, a sua melhor amiga, havia escrito uma vez para ela, consciente de que todas as palavras que pudesse dizer, não iriam mudar a atitude submissa de Sofia em relação a Miguel. Pelo menos por enquanto. Escrevera-lhe para que um dia, ao ler de novo aquele pedaço de papel amarrotado tivesse a certeza de que afastar-se de Miguel fora a sua melhor decisão.
"Ele
é só mais um rapaz. É só um rapaz. Não é o “sustentáculo de
todos os ossos do teu corpo”, tão pouco “o mármore onde está gravada a
suprema razão da tua existência”. É só um rapaz. E queres mesmo saber? É
um como todos os outros. Esse que te perguntou as horas no meio da rua –
podia ter sido ele e tu nem ligaste. O mendigo,
o ginecologista, o padre. Ele sempre esteve ali o tempo todo ou então
não estava de todo. Ele é só mais um deles, como eles. Vários. Uma
legião. É ninguém. É só um rapaz, mais um. E não a tua vida. E não todos
os dias da tua história. Ele não é todas as tuas lágrimas juntas num
único sábado solitário. Ele não é o destino. É um rapaz. E existem
muitos destinos. Ele é só um rapaz que mal sabe escolher os próprios
perfumes. Não sabe sangrar. Não sabe que nome daria a um filho. Não pode
ficar mais tempo, não contigo, és boa demais. Ele é só um miúdo
perdido como muitos outros que já encontraste. E perdeu. Ele é só um
rapaz. E tu já esqueceste outros rapazes antes."