Esperança



É quando a noite cai e o céu se torna num misto de laranja rosado que as recordações assaltam Sofia. Os seus olhos castanhos amendoados transparecem tristeza e mágoa, o brilho que outrora neles morava desvanece. Se fechar os olhos ainda consegue sentir a mão de Miguel acariciar-lhe os cabelos longos e avermelhados naquela tarde quente de Primavera. Ainda consegue sentir o seu cheiro característico e a força da sua mão robusta quando entrelaçava os dedos nos seus, no que parecia ser o encaixe perfeito.
Foram dois longos anos sempre com uma réstia de esperança de que um dia Miguel iria perceber que ela era a peça que precisava para o completar. Mas passou muito tempo… Demasiado tempo.
Era Verão. Estranhamente, o tempo apresentava-se exactamente ao contrário do que seria de esperar. Chovia sem parar há já algumas horas e, no momento em que Sofia entrava no prédio de Miguel, começou a trovejar. Mal entrou por aquela porta, um relâmpago iluminou tudo em seu redor. Sofia tremeu, como se adivinhasse o que se seguiria. 
Sempre odiou elevadores, tinha medo de entrar neles sozinha e nunca soube encontrar explicação para tal fobia. Miguel vivia no 3º andar, podia subir pelas escadas.. mas nesse dia entrou no elevador sem receio algum, encorajada por algo inexistente que lhe dizia para seguir em frente.
Ensonado, meio despido, como sempre, tão habitual. Foi assim que Miguel a recebeu à porta. Olhou para ela durante uns segundos e caminhou vagarosamente até à sala sem proferir uma palavra. Sofia seguiu-o em silêncio.
Quando entrou na sala Miguel já se havia sentado no enorme sofá verde vibrante, de pernas esticadas, completamente imóvel em frente à televisão. Aquela era uma postura de indiferença e derrota no entender de Sofia, que se sentou ao seu lado silenciosamente.
Passados alguns minutos sem sequer se fitarem, olharam nos olhos um do outro em simultâneo. Sofia sorriu. Foi por aquela pessoa que um dia se apaixonou, e ali continuava ele, aos seus olhos, igual como da primeira vez. Nunca conseguiu arranjar razões para tal fascinio, não que as procurasse, mas quando pensava nisso, não conseguia encontrar um único motivo para ter encontrado o amor em Miguel.
Quem olhasse para cada um deles separadamente nunca diria que algum dia houvesse qualquer ligação entre os dois. Miguel era moreno, tinha um corpo atlético e aquela barba de três dias que lhe dava um ar de rufia de que Sofia tanto gostava. Não tinha por hábito ser muito carinhoso. Sofia também não.
Miguel, em resposta, sorriu. Sofia teve a certeza naquele momento que foi por aquele sorriso que se tinha apaixonado.
Espelhado nos olhos de ambos estava aquilo que não se conseguia passar para palavras. Abraçaram-se. Os dois sabiam que era o fim da linha. As emoções perderam-se naquele abraço. Falaram do percurso de ambos de há dois anos até então. É certo que Miguel não tinha sido exemplar, fez tudo o que quis de Sofia, que sofreu mais do que algum dia pensou sofrer por alguém. E agora já nada conseguiria apagar o passado.
Não é que o amor tivesse acabado, mas há momentos na vida em que se chega à conclusão que amar não é suficiente… Porque dói, porque amar demais também magoa.
O amor é uma coisa engraçada. Normalmente espera-se que seja fácil. Sofia esperava que Miguel dissesse sempre a coisa certa, que soubesse exactamente como ela se sentia ou como devia reagir. Esperava que ele a acalmasse quando ela gritava e corresse atrás dela quando fugia. Só não esperava sentir-se completamente derrotada quando algo não correspondia a todos os seus planos. Mas o amor não é um plano. O amor é, por vezes, inconveniente, doloroso e devastador.
As pessoas não compreendiam porque é que Sofia fazia as coisas que fazia ou porque é que lutava tanto por algo que lhe causava tanta dor. Sofia não sabia, até então, o quão duro é o amor. Inadvertidamente, colocou a sua vida, o seu coração, nas mãos de Miguel e esperou que ele não se esquecesse da importância do que lhe entregara. Ainda assim, para Sofia, todas as luta, todas as lágrimas e incertezas valeram a pena… Afinal é impossível ser cem por cento feliz sem alguém que nos mostre que existe uma grande diferença entre sentir-se feliz e sentir-se completo.
Hoje, Sofia sabe verdadeiramente o que é o amor. Incondicional. Até ao fim da vida pode ter mil e uma paixões, mas será sempre Miguel o seu amor.