Conheceram-se no dia em que Sofia completou dezoito anos. Uma data memorável que ficaria marcada pelo presente mais envenenado que recebera até então.
Ambos já tinham trocado olhares antes (afinal, nenhum dos dois passava despercebido a olhares mais indiscretos). Já haviam comentado com os respectivos amigos que haviam de se conhecer um dia.
Acabaram por ser apresentados pelo melhor amigo de Sofia que, graças à sua perspicácia e no meio de correrias tresloucadas entre um e outro, acabou por conseguir que os dois finalmente partilhassem o mesmo metro quadrado. "Miguel, esta é a Sofia". Miguel sorriu, como só ele sabia, preenchendo uma pequena parte daquele vazio que há muito se havia instalado nos olhos dela.
Começou, a partir desse dia, a viagem mais turbulenta e esmagadora que algum dia sonharam fazer.
Passaram
a estar juntos. Sozinhos. Ambos souberam de início que nunca se iria
tratar só de uma simples e breve amizade. Havia algo entre os dois que os
fazia adivinhar um futuro próximo em comum.
Sofia costumava dizer que tinha sorte ao azar. Tinha a capacidade nata de consertar os outros quando era ela quem mais precisava de ser consertada. Era muito independente, característica que Miguel sempre valorizou. Sempre tinha sido a "solteira" do grupo por opção. Recusava-se a mudar o seu estado civil por alguém que não valia tanto quanto ela merecia. Sabia o seu próprio valor e, por isso, escolhia preservar um pequeno espaço no seu coração para alguém que fosse maduro o suficiente para perceber que lealdade, compromisso e honestidade são uma prioridade e não uma opção. Mas foram estas convicções que a acabaram por trair, ao apaixonar-se perdidamente pela pessoa que era exatamente o oposto do que ela pensava encontrar.
Após dois anos intermitentemente juntos, só restou mágoa.
Sofia nunca se preocupou demasiado, sabia que Miguel iria sentir a sua falta. Apercebeu-se que ele não era suficientemente inteligente. Se o fosse, teria percebido o erro que cometeu ao dizer-lhe adeus.
Contra tudo e todos, Sofia lutou por Miguel mais do que as suas forças permitiram. Tornou-se numa pessoa obsessiva, de mal com a vida, ela que sempre fora a prova viva da alegria em todo o seu esplendor. Encobriu todas as mentiras e asneiras graves que Miguel fazia sucessivamente, prejudicando-se em prol dele. Era errado fazê-lo, sempre soube... mas amou-o tanto que acabou por deixar de se amar a si própria.
Miguel virou a vida de Sofia de pernas para o ar. Fê-la sonhar alto e depois fê-la cair. Quis o amor dela sem intenção de a amar e, quando ela mais o queria, menos ele se dava... só se dava inteiramente quando pretendia algo. Sofia sorria sempre, mas tinha lágrimas nos olhos. Pensava poder viver sem Miguel, mas sem ele não teria razão para viver.
Tantas foram as vezes que imploraram um ao outro para ficar e começar do zero... Como um ciclo interminável, acabavam por voltar sempre ao mesmo.
Sofia deixou sempre muito por dizer. "Se fores, não voltes", era o que lhe deveria ter dito logo, ainda que a voz tremesse, falhasse, e as mãos procurassem o conforto das de Miguel sob uma expectativa negada. Miguel foi... mas voltou. Uma, duas, dez vezes... foi e voltou. Inacreditavelmente, acabou sempre por encontrar Sofia exatamente onde a havia largado.
Sofia esperou por Miguel. Quebrou as regras do jogo que ela própria havia construído. Porém, a sorte não esteve do seu lado (como sempre). Arriscou, jogou, perdeu.
E quando Miguel chegou um dia envolto em indecisões e perdão, foi obrigada a dizer: "Por ti, por nós.. vai. E desta vez não voltes. Nunca mais".